Abílio - Resenha crítica - Cristiane Correa
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Abílio - resenha crítica

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Biografias & Memórias

Este microbook é uma resenha crítica da obra: 

Disponível para: Leitura online, leitura nos nossos aplicativos móveis para iPhone/Android e envio em PDF/EPUB/MOBI para o Amazon Kindle.

ISBN: 8568377025; 978-8568377024

Editora: Primeira Pessoa

Resenha crítica

Primeiros passos

Valentim dos Santos Diniz tinha 16 anos quando deixou a aldeia de Pomares do Jarmelo, no interior de Portugal, em 1929, rumo ao Brasil. Ele embarcou na terceira classe de um navio que cruzou o Atlântico e atracou duas semanas depois na Baía da Guanabara, no Rio de Janeiro.

Depois de adquirir um mercadinho e uma padaria, Valentim dos Santos Diniz decidiu enveredar por outro ramo. Comprou dois imóveis na avenida Brigadeiro Luís Antônio e, a partir deles, construiu um pequeno prédio.

Seu nome era Pão de Açúcar, homenagem à primeira visão de seu Santos quando aportou no Brasil. Abilio, à época com 12 anos, logo se habituou a circular por aquele ambiente.

Copiar, copiar, copiar

Abilio Diniz se formaria como administrador de empresas. Apesar da condição aparentemente favorável no país, ele tinha planos que passavam longe do Brasil. Trabalhar na doceria do pai era algo que não tinha intenção de fazer. Embora o negócio pagasse as contas da família, aquilo não lhe parecia atraente.

Para convencê-lo, seu Santos apelou para uma das características marcantes do primogênito: a ambição. Se Abilio não tinha interesse por padarias ou mercearias, o jeito era atraí-lo para um projeto maior. De supetão, seu Santos lhe perguntou o que achava de ter um supermercado.

Crescimento

Para crescer, os Diniz tiveram de abrir mão de algumas convicções. Entre elas, a de que o Pão de Açúcar precisaria ser dono de todos os terrenos em que instalasse supermercados e que deveria, ele mesmo, construir suas lojas. Embora parecessem razoáveis, essas premissas tomavam tempo e dinheiro.

Num tempo em que benchmark era um termo quase desconhecido no Brasil, ele não hesitava em “se inspirar” nos concorrentes. Primeiro, em redes brasileiras como Peg-Pag e Sirva-se. Depois, em exemplos internacionais.

Àquela altura, o Pão de Açúcar começava a ser reconhecido como uma importante rede varejista brasileira e ensaiava os primeiros passos no exterior. A estreia se deu em Portugal, em 1969, com a abertura de um supermercado em Lisboa.

Na sequência, o grupo chegaria também a Angola e Espanha. Abilio Diniz já era um empresário conhecido, que circulava com desenvoltura por Brasília e se tornara interlocutor frequente de jornalistas.

Racha na família

Raras empresas familiares brasileiras encenaram tão bem uma disputa por poder quanto o Pão de Açúcar. O drama começou a se delinear em 1970, quando seu Santos decidiu fazer uma doação em vida para os filhos.

Como geralmente acontece quando se misturam família e negócios, o que estava em jogo não era só o poder na empresa. Os protagonistas do embate disputavam também a atenção dos pais e a exposição na mídia.

Abilio não estava satisfeito. Sua autoridade no Pão de Açúcar, até então inquestionável, começava a ser discutida pelos irmãos. Aos poucos os feudos se formavam. Isso não era bom para a família e muito menos para o negócio. Abilio, em geral tenso e carrancudo, fechou-se ainda mais. Ele precisava encontrar outro rumo para sua vida.

O horror no cativeiro

Na manhã de 11 de dezembro de 1989, uma segunda-feira, Abilio deixou seu apartamento no horário habitual, antes das oito da manhã, dirigindo seu Mercedes. Estava sozinho no automóvel. Como fazia quase todos os dias, tinha como destino a sede do Pão de Açúcar.

Pouco depois de deixar seu prédio, uma ambulância atravessou seu caminho e parou em frente ao carro. Logo em seguida, sentiu que algo havia se chocado contra a traseira de seu veículo.

Encurralado, não podia seguir adiante nem dar ré. Um dos membros do bando conseguiu desarmá-lo. Antes que se desse conta, foi encapuzado e jogado no banco traseiro de um dos carros dos sequestradores. Pelos próximos seis dias, o homem acostumado a comandar teria de obedecer a seus algozes.

Quando os sequestradores removeram seu capuz, Abilio se viu num cubículo subterrâneo de menos de 5 metros quadrados. O teto era tão baixo que o empresário não conseguia se manter ereto.

Quase não havia ventilação. Dentro do cárcere havia pouquíssimos objetos: um colchonete fino, um vaso sanitário e uma lâmpada que era acesa e apagada aleatoriamente. De uma caixa de som vinha uma música sertaneja em volume alto que falava em matar ou morrer por amor.

Àquela altura, Abilio já não vestia nem as próprias roupas. Os sequestradores o deixaram apenas com sua cueca e o obrigaram a usar uma camiseta cinza e uma calça esportiva azul com listras brancas, uniforme que manteria por todo o cativeiro. Descalço, ele apenas esperava.

Para sorte de Abilio, os policiais em pouco tempo descobriram uma pista que levaria aos bandidos. Achar o local onde o empresário estava escondido era uma coisa. Outra, bem diferente, era tirá-lo de lá com vida.

Uma longa negociação que se arrastaria por quase 36 horas envolveu a participação do delegado encarregado do caso, do amigo da família Luiz Carlos Bresser-Pereira e do cardeal Dom Paulo Evaristo Arns.

Às 17h05 do domingo, 17 de dezembro, diante das câmeras de TV e de fotógrafos dos principais veículos de comunicação do país, Abilio Diniz foi libertado. Num dos cômodos da casa a polícia encontrou um caixão de madeira. A libertação se transformara num espetáculo midiático.

Para Abilio, que chegou a duvidar que escaparia com vida, foi o fim de um pesadelo. O homem que saiu do cativeiro estava quase 3 quilos mais magro. Tinha o olhar vidrado e a barba por fazer.

Chegou em casa e tomou um longo banho. Ele cercou-se dos familiares mais próximos e de poucos amigos. Dormiu com a ajuda de remédios.

Da “lavanderia” para a França

Depois de um corte de custos, empréstimos e venda de ativos, o Pão de Açúcar conseguiu respirar de novo. No final de 1991, o balanço da empresa apontou um lucro de 3 milhões de dólares. Abilio queria dar sua cara de vez e afastar o restante da família do negócio. Alcides, o irmão que lhe fazia oposição de forma mais aberta, já estava fora.

Depois que se tornou o legítimo controlador do Pão de Açúcar, dispôs-se a moldá-lo à sua imagem e semelhança. Pela primeira vez, pôde ditar as regras na empresa sem prestar contas aos familiares.

Em 1997, o Pão de Açúcar iniciou uma onda de aquisições sem precedentes em sua história. Foram 35 redes em 15 anos. Tempos depois, duraram meses as negociações entre Casino e Pão de Açúcar para, em agosto de 1999, o Casino compraria 24,5% do Pão de Açúcar por 854 milhões de dólares.

Roda-gigante

Depois de resgatar a companhia do buraco no início da década de 1990, conduzir sua abertura de capital, lançar seus papéis na Bolsa de Nova York e atrair um sócio estrangeiro, Abilio Diniz era o empresário da vez. Tornou-se lendária uma reportagem publicada pela revista Veja em março de 2001.

A capa trazia o título “Perfil de vencedor” e estampava uma foto de Abilio na academia de casa, com a silhueta enxuta e músculos superdefinidos, graças às cinco horas diárias de exercícios. Seu apelido entre os principais executivos da empresa era roda-gigante, devido aos altos e baixos de seu humor.

Diniz e Klein, uma curta lua de mel

A primeira aproximação entre Abilio e os Klein acontecera em 2007. As conversas avançaram com rapidez. Talvez rápido demais, como o tempo viria a mostrar.

Em menos de dois meses as linhas centrais do acordo foram acertadas, com o consentimento do patriarca dos Klein, Samuel, dono de 53% das Casas Bahia e então com 86 anos.

Todos estavam empenhados em concluir a negociação o mais rápido possível. Não demorou para que a animação acabasse.

Uma nova grande disputa estava começando para Abilio. Depois de assinar o acordo de 29 páginas com o Pão de Açúcar, os representantes das Casas Bahia se arrependeram.

O embrião da disputa com o Casino

A ideia era unir as operações do Pão de Açúcar e do Carrefour no Brasil. Seria criada uma holding que controlaria as operações de ambas as varejistas no país e se transformaria na segunda maior acionista individual do Carrefour na França.

Abilio deixaria de ter atuação exclusivamente no Brasil e passaria a ser um sócio relevante numa companhia com representação mundial.

A operação sugerida por Abilio e seu time teria mais uma consequência: diminuiria a participação do Casino no capital da nova empresa para 27% e afetaria sua tomada de controle.

A primeira vez que Abilio conversou com um acionista do Carrefour sobre um eventual negócio foi em 20 de julho de 2009.

Pércio de Souza telefonou para Pierre Bouchut, ex-executivo do Casino que ingressara no Carrefour como CFO em março daquele ano. Bouchut organizou um almoço no restaurante do hotel Four Seasons de Milão do qual participaram Abilio, Pércio e Sébastien Bazin, então responsável pelos investimentos europeus do fundo Colony.

O pretexto do almoço era o futebol: o Colony acabara de comprar o Paris Saint-Germain e Abilio é um fervoroso admirador do esporte. Pego desprevenido, Bazin mais ouviu que falou – e ao longo de meses pouco se avançou. Foi em outubro de 2010 que as conversas entre Pércio e representantes dos principais acionistas do Carrefour engrenaram.

A Estáter desenharia, a partir de então, mais de uma centena de versões para um possível negócio entre Pão de Açúcar, Carrefour e Casino. Simultaneamente, Abilio contratou consultores que avaliaram as sinergias entre as empresas.

Lugar de gente feliz é aqui

Ao deixar o Pão de Açúcar entre 2012 e 2013 depois da dura negociação com o Casino, Abilio estava com muito dinheiro no bolso depois de vender todas as suas ações da rede varejista. De acordo com a revista americana Forbes, ele era o nono homem mais rico do Brasil, com uma fortuna estimada em 4,4 bilhões de dólares.

Quarenta e sete anos depois da viagem que fez a Paris, em 1967, para conhecer Marcel Fournier, cofundador do Carrefour, Abilio finalmente tornou-se um sócio relevante da varejista que sempre admirou – primeiro no Brasil e depois na França.

Em dezembro de 2014, na coletiva de imprensa sobre o anúncio da compra da participação na operação brasileira, ele disse: “Agora lugar de gente feliz é aqui”, numa bem-humorada referência ao slogan do Pão de Açúcar.

Notas finais

Falar de Abilio Diniz é contar um pouco da história de um dos empresários mais respeitados e bem-sucedidos do país. Ainda assim, essas memórias demonstram que seu arrojo por vezes beira a obsessão pelo sucesso, custe o que custar. Ele chega a passar por cima de familiares em prol de controlar as operações nas empresas as quais está dedicado.

Um lado controverso, mas que não tira o brilhantismo de alguém em quem todo empresário vai se espelhar. Suas memórias e participação em momentos cruciais do país são leitura obrigatória para quem busca um incentivo por meio da determinação pelo sucesso.

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Quem escreveu o livro?

Cristiane Correa é jornalista e palestrante, especializada em negócios e gestão. É autora do livro Sonho Grande, que narra a trajetória dos empresários Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Beto Sicupira, donos da ABInbev, Lojas Americanas, Burger King e Kraft Heinz. Lançada em abril de 2013, a obra imediatamente entrou para a lista de best sellers de não ficção no Brasil – com mais de 300.000 exemplares já vendidos no país. A obra for lançada também nos Estados Unidos, China e Coréia. Em julho de 2015, Cristiane publi... (Leia mais)

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